3. BRASIL 15.5.13

1. LULA, O SABONETE
2. COM O DINHEIRO DOS POBRES
3. CUBANOS PARA QU?
4. O CHEQUE VAI FALAR...

1. LULA, O SABONETE
O ex-presidente agora critica o PT "eleitoreiro" e diz que o mensalo foi um "tropeo". No, ele no mudou. Est fazendo o que sempre faz: limpando a prpria biografia e a do partido  custa dos outros.
DANIEL PEREIRA E OTCIO CABRAL

     O ex-presidente Lula disse cena vez que  uma metamorfose ambulante. Ele tem razo. Em 2005, quando a imprensa revelou a existncia de um esquema de compra de votos no Congresso comandado pelo governo do PT, Lula se declarou trado e pediu desculpas  nao. Em 2010, pouco antes de transferir o comando do pas a Dilma Rousseff, ele prometeu que se dedicaria a desmontar a "farsa" do mensalo, que no passaria de um golpe tramado por setores conservadores da elite, da mdia e do Judicirio para derrubar os petistas do poder. A ofensiva no deu certo, e o  Supremo Tribunal Federal (STF) condenou 25 dos 38 rus do processo. Diante do resultado, restou a Lula mudar de lado novamente. Foi o que ele fez numa entrevista para o livro Lula e Dilma, 10 Anos de Governos Ps-Neoliberais no Brasil. Nela, o petista reconhece que o mensalo foi um "tropeo" e faz um mea-culpa. Um tropeo e um mea-culpa no dele, mas dos companheiros de partido. Lula, como repetem os petistas com certa ironia, nunca erra. Lula, como ele mesmo diz, nem sequer sabia do mensalo. Eis dois mantras do PT, entoados numa tentativa permanente de preservar a biografia do chefe. 
     O ex-presidente abandonou a discurseira e o lobby em defesa dos mensaleiros depois que o STF sentenciou, em dezembro, a antiga cpula petista   priso. Em conversa com aliados, Lula falou que era hora de assimilar a derrota jurdica, ressaltando que o partido j tinha superado o escndalo do ponto de vista eleitoral, como atestariam as vitrias nas disputas presidenciais de 2006 e 2010. O fracasso no Judicirio, ponderou, no seria capaz de fazer frente  consagrao nas urnas. Lula lembrou ainda que tinha tentado ajudar os rus antes do julgamento. Com a condenao, nada mais poderia fazer por eles. "Em toda guerra, h combatentes mortos", declarou. Nos prximos dias, o Supremo comear a analisar os recursos dos condenados. Se as penas no forem reduzidas ou anuladas, o ex-presidente do PT Jos Genoino ter de passar as noites na cadeia e perder o mandato de deputado federal. J o ex-ministro da Casa Civil Jos Dirceu e o ex-tesoureiro petista Delbio Soares cumpriro pena em regime fechado. Para Lula, cuja suposta participao no mensalo est sob investigao do Ministrio Pblico (veja a reportagem na pgina 62), essa agenda negativa no pertence mais a ele e ao partido. 
     A prioridade agora  ressaltar as realizaes dos dez anos de governo do PT para lavar a prpria biografia e impulsionar a candidatura de Dilma  reeleio. Foi esse o esprito da propaganda do partido exibida na TV na semana passada. O tema mensalo, se for abordado em pblico, tem de ser feito ao gosto do eleitorado, sempre acompanhado da eterna promessa de moralizao da poltica. Justamente o script seguido por Lula na entrevista para o livro sobre os dez anos de governo petista, que foi concedida em fevereiro, mas s divulgada neste ms. "O PT cometeu os mesmos desvios que criticava. O PT precisa voltar a acreditar em valores banalizados por conta da disputa eleitoral.  provar que  possvel fazer poltica com seriedade. Pode fazer o jogo poltico, mas no precisa estabelecer uma relao promscua para fazer poltica", declarou Lula. 
     O problema  a distncia quilomtrica entre o discurso e a realidade. A origem do mensalo est associada  tentativa de Lula  depois de trs derrotas em disputas presidenciais  de formar uma aliana mais ampla para a corrida presidencial de 2002. Com a vitria nas urnas, ele montou uma abrangente base de sustentao no Congresso, fomentada  custa do loteamento da administrao pblica e da compra de votos parlamentares. A bancada lulista engordou no decorrer dos oito anos de mandato, quando o fisiologismo atingiu nveis inauditos. Dilma j assumiu a Presidncia com a mesa posta. Agora, de olho na reeleio, ela atua para montar a maior coligao eleitoral da histria. Tudo sob a orientao de Lula. No incio deste ano, a presidente reacomodou no comando dos ministrios dos Transportes e do Trabalho aliados dos presidentes do PR, senador Alfredo Nascimento, e do PDT, Carlos Lupi. Nascimento e Lupi haviam sido demitidos das pastas pela prpria Dilma, em 2011, por suspeitas de corrupo. O retorno deles ao Palcio do Planalto, em vez de combater, s refora os tais "valores banalizados por conta da disputa eleitoral". O mesmo vale para a posse, na semana passada, de Guilherme Afif Domingos como ministro da Micro e Pequena Empresa. 
     A pasta, a 39 da Esplanada, foi criada para atrair o PSD ao governo e para a chapa  reeleio em 2014. Chefiado pelo ex-prefeito de So Paulo Gilberto Kassab, o PSD tem a quarta maior bancada da Camar e direito a quase dois minutos na propaganda eleitoral de TV. So dotes valiosos  daqueles que fazem com que os partidos se paream a "negcios", como destacou Lula na mesma entrevista em que fez o mea-culpa do mensalo; daqueles que o PT, no entanto, no se faz de rogado na hora de negociar e comprar. Tamanho  o empenho para trocar alianas com o PDS que Lula e Dilma relevaram at os constrangimentos impostos ao PT pelo novo ministro. Outra metamorfose ambulante da poltica nacional, com passagens pelo PDS de Paulo Maluf, hoje PP, pelo PL (atual PR) e pelo PFL (hoje DEM), Afif disse, certa vez, que eleger Dilma seria o mesmo que entregar um Boeing nas mos de quem jamais havia pilotado nem sequer um teco-teco. Quando ainda despontava nas trincheiras da oposio, Afif tambm comandou protestos contra o mensalo e foi o idealizador do Impostmetro. Quanta ironia. Quanta mudana de lado. 
     O Impostmetro, por exemplo, foi criado como forma de criticar o fato de o governo do PT manter uma pesada carga tributria a fim de, entre outros, custear o inchao da mquina pblica. O mesmo inchao que agora garante a Afif o status de ministro. Os constrangimentos no param por a. Afif  vice-governador de So Paulo, estado comandado pelo PSDB. Ou seja: mantm um p na canoa petista e o outro na canoa tucana. Pelo menos nesse quesito h coerncia no tabuleiro. Afinal, Kassab j disse que o PSD no  nem de centro, nem de direita, nem de esquerda.  governista. Feito para ajudar qualquer governo.  justamente o que est fazendo o partido, que seria batizado inicialmente de PDB, nome deixado de lado aps ser apelidado de Partido da Boquinha. Injustia! A cooptao de um novo parceiro reforou o otimismo em Dilma. Numa conversa recente, ela disse a petistas que, com tantos apoios partidrios e a perspectiva de acelerao da economia, no h como no ser reeleita. "Quero ver quem ter coragem de me enfrentar", desafiou a presidente. 
     Alm da possibilidade de render dividendos eleitorais como tempo de TV, a nomeao de Afif foi uma tentativa de reabrir um canal com o empresariado paulista, que est fechado desde a sada de Antonio Palocci da Casa Civil, em 2011. A medida vinha sendo discutida h dois meses entre Dilma e Lula. A presidente ficou alarmada com a adeso a um jantar oferecido pelo empresrio Flvio Rocha, dono das lojas Riachuelo, ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos, possvel candidato a presidente pelo PSB. "Perder o apoio do empresariado de So Paulo para o PSDB  do jogo, mas ver que eles podem ir para o lado do Eduardo fez acender um alarme no governo", disse um ministro. Dilma, ento, procurou Kassab e fez o convite a Afif. Lula desconfiou do sucesso da iniciativa. Ele temia que Afif, devido aos embates travados nos ltimos anos, recusasse a oferta, o que desgastaria ainda mais o governo com a classe mdia e com o eleitorado de So Paulo. Mas Dilma bancou a escolha. Mesmo os argumentos de que Afif tem um histrico poltico de oposio ao PT no a demoveram da ideia. Para a presidente, eventuais crticas  nomeao de um antigo desafeto so um preo baixo a pagar diante da perspectiva de reabertura do dilogo com o setor produtivo do mais importante estado do pas.
     Um exemplo dado por Dilma foi a falta de interlocuo com o setor de autopeas. Nos ltimos anos, as montadoras de automveis conseguiram importantes benefcios fiscais, como a reduo do IPI (imposto sobre produtos industrializados). O impacto na reduo do preo dos veculos seria maior se os mesmos incentivos tivessem sido estendidos aos fabricantes de peas. Mas o setor  desorganizado e formado por centenas de pequenas indstrias, que no conseguiram fazer com que seus pleitos chegassem ao Planalto. "O presidente da Volkswagen passa a mo no telefone e fala com a presidente no mesmo dia. Mas o fabricante dos eixos de rodas dos carros da Volks, que fatura milhes por ano, no consegue falar nem com a secretria", contou o mesmo ministro. Aps a sada de Palocci, esse papel de interlocuo com o empresariado deveria ter sido desempenhado por Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio Exterior, que no cumpriu a misso. Agora, a esperana  que Afif seja esse elo. Na hora da eleio, j disse a presidente, vale o diabo. E o tinhoso no d a mnima para valores, coerncia ou convices.

LULA, DILMA, O PT E OS LADRES
     Os petistas gostam de ressaltar a intuio e a capacidade do ex-presidente Lula de antever cenrios. Dizem que ele tem um faro poltico nato e incomparvel, que representaria uma vantagem competitiva em relao aos adversrios. O lanamento da candidatura dos "postes" Dilma Rousseff e Fernando Haddad, contra a vontade inicial da mquina partidria,  prova da genialidade do lder petista. A tese  controversa. Primeiro, porque Lula j errou prognsticos decisivos, como quando negou apoio ao Plano Real e apostou em seu fracasso. Segundo, porque o PT trabalha cada vez mais de forma cientfica, planejando cada passo a partir de pesquisas. O resultado da sondagem mais recente foi debatido em abril. Na ocasio, o marqueteiro Joo Santana contou a Lula, Dilma e aos ministros da Sade, Alexandre Padilha, e da Educao, Aloizio Mercadante, que para a maioria da populao o Brasil mudou de nvel nos ltimos anos  para melhor. E que esse salto qualitativo  associado aos governos de Lula e de Dilma. Na reunio, Santana disse que houve uma "marmorizao" da percepo de que o ex-presidente e a sucessora so uma coisa s. Muitos dos entrevistados chegaram a falar que o pas tinha dois presidentes, que trabalhariam em parceria. 
     Essas concluses nortearam a propaganda eleitoral do PT exibida  na ltima quinta-feira. Nela, Lula e Dilma, um completando a frase do outro, destacaram os avanos em indicadores de forte apelo popular, como emprego, renda e acesso  educao. A propaganda reforou mais a figura dos mandatrios do que a imagem do PT. Como no poderia deixar de ser, o marketing petista prometeu fazer ainda mais pela populao. A pesquisa de abril deixa claro os brasileiros que tm de receber tratamento prioritrio do governo. De acordo com o levantamento, a base da pirmide social est fechada com Lula, Dilma e o PT, que governariam para o povo. Esse patrimnio eleitoral j estaria consolidado. A nova classe mdia, segundo a sondagem, tende a trilhar o mesmo caminho, mas precisa ser cultivada. Ela  a noiva mais cobiada.  ela que possivelmente decidir a sucesso presidencial em 2014. Na classe mdia tradicional e entre os ricos, a imagem  bem diferente. Para esses segmentos, o PT  o partido dos ladres. Nada, no entanto, que feche a porta para a conquista de votos. A ladroagem  associada a Lula. Dilma ainda consegue se manter blindada da pecha negativa. Isso ajudaria a explicar os recordes de popularidade da presidente e o fato, nunca experimentado pelo antecessor, de ela ser bem-aceita por setores da elite to atacados pelo PT. 
DANIEL PEREIRA


2. COM O DINHEIRO DOS POBRES
Em mais uma investida contra os cofres pblicos, militantes do PCdoB agora so investigados tambm por desvios no programa Minha Casa, Minha Vida.

     Por definio, o comunista  inimigo do capital, da propriedade privada, da explorao do trabalho e do acmulo de riqueza. Quando chega ao poder, porm, essas slidas certezas se derretem no ar.  o que ocorre agora em Braslia. Na semana passada, a Polcia Federal abriu um inqurito para investigar um grupo de ex-servidores do Ministrio das Cidades que fraudou licitaes e desviou recursos do Programa Minha Casa, Minha Vida. O esquema, chefiado por um militante comunista, pode ter irrigado os cofres do PCdoB e os bolsos de camaradas com o dinheiro desviado das casas populares. Ao melhor estilo capitalista, os militantes fundaram um conjunto de empresas de papel para lucrar sem fazer nenhum esforo. A partir de informaes privilegiadas, eles fraudavam licitaes e ganhavam contratos com as prefeituras. Depois, cobravam propina para repass-los a pequenas empreiteiras, que eram subcontratadas para construir as casas populares. Um negcio bem tramado que no continuou operando porque houve um desentendimento na hora de socializar a mais-valia dos golpes. 
     Insatisfeito com a parte que havia recebido  cerca de 1 milho de reais , um dos camaradas-scios, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, resolveu entrar na Justia para requerer uma fatia maior dos lucros. A partir da, a disputa pelo faturamento milionrio  coisa de uns 12 milhes de reais  acabou expondo evidncias das fraudes, que ocorriam desde 2005. O dinheiro, segundo o depoimento de Fernando Borges, ex-funcionrio do Ministrio das Cidades, sairia do antigo Programa de Subsdio Habitacional (PSH), incorporado mais tarde pelo Minha Casa, Minha Vida, e acabaria nos cofres do PCdoB e de seus militantes. A ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra  citada como idealizadora do esquema. A petista teria aberto as portas de bancos privados para o financiamento dos negcios do grupo. Como recompensa, ficaria com 200 reais de cada casa construda. 
     Alm do inqurito policial, o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, abriu uma sindicncia para apurar as irregularidades. Procurada, a ex-ministra Erenice Guerra preferiu o silncio. O envolvimento de comunistas em negcios escusos no  novidade. Em 2011, membros do partido j haviam sido apanhados desviando recursos no Ministrio do Esporte. Criado para amparar crianas carentes, o Programa Segundo Tempo alimentava ainda o caixa de campanha de polticos do PCdoB. O site do partido informa que os camaradas, agora no poder, lutam pela construo de um certo "socialismo moderno" e que vivem hoje "uma das suas fases mais ricas". Faz sentido. 
ROBSON BONIN


3. CUBANOS PARA QU?
Em mais um esforo para sustentar a ditadura dos irmos Castro, o Itamaraty anuncia o plano de importar mdicos da ilha, pondo em risco a sade dos brasileiros.

     Deixar o programa do Partido dos Trabalhadores comandar a poltica externa d nisso. O governo brasileiro se v obrigado a pr os interesses nacionais em segundo lugar. Foi assim nas relaes com o governo boliviano, conivente com o trfico de drogas para o Brasil, nos aplausos ao autoritarismo venezuelano e nos milhes de reais emprestados pelo BNDES com juros camaradas  ditadura cubana, a maior parte para a reforma do Porto de Mariel. No h sinal de que a subservincia aos planos aloprados do partido v diminuir. Nunca os efeitos dessa afinidade entre o PT e a ditadura caribenha foram to claramente contrrios aos interesses dos cidados brasileiros quanto na deciso de importar 6000 mdicos cubanos. O anncio foi feito na semana passada pelo ministro das Relaes Exteriores, Antonio Patriota, durante uma reunio com o chanceler castrista Bruno Rodriguez, em Braslia. Pelo projeto, os "mdicos" atendero brasileiros em hospitais de regies pobres ou distantes das grandes cidades. 
     A medida ter, no mnimo, dois efeitos negativos. Primeiro, vai pr em risco a sade dos pacientes. Segundo, inundar o interiorzo do Brasil com agentes de uma nao estrangeira politicamente arcaica. A medicina cubana  uma das mais atrasadas do mundo. A maioria dos seus profissionais se forma sem nunca ter visto um aparelho de ultrassom, sem ouvir falar de um stent coronrio e sem poder se atualizar pela internet. "Cuba gradua mdicos em escala industrial, com formao incompleta", diz Carlos Vital, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, que  contra o projeto. Ele completa: "Pelos padres do Brasil, os cubanos no poderiam sequer realizar procedimentos banais como ressuscitao ou traqueostomia". 
     Ainda que na opinio do Itamaraty a qualidade do tratamento mdico dado aos pacientes pobres no seja relevante, talvez valesse a pena considerar as consequncias de permitir a entrada, no Brasil, de espies estrangeiros disfarados de agentes de sade. O governo cubano no deixa que seus mdicos viajem sozinhos. Se assim o fizesse, daria a eles a chance de fazer o que a maioria dos seus cidados tanto deseja: fugir da ilha-priso e juntar-se a parentes no exterior. Para evitar que isso acontea, o regime cubano envia um espio para cada cinco mdicos exportados. Ou seja, do total de cubanos que o governo brasileiro pretende trazer, cerca de 1200 sero agentes secretos. Na Venezuela, por exemplo, para onde Cuba encaminhou 40.000 mdicos em troca de petrleo a preo de banana, os agentes infiltrados vestem o jaleco branco (alguns nunca fizeram faculdade) e dormem nos mesmos alojamentos que os verdadeiros clnicos. A misso dos agentes  bvia: garantir que os mdicos no escapem. Por vezes, os espies somem durante dias, sem dar explicao aos demais. Nessas ocasies, eles voam para Cuba para prestar informaes sobre o comportamento dos colegas. No retorno  Venezuela, trazem a mala carregada de charutos para vender no mercado negro. Um mdico flagrado criticando a ditadura cubana ou tentando a liberdade pode ser punido com a anulao do diploma, a repatriao ou a realocao para uma regio da Venezuela com altos ndices de criminalidade. Ainda assim, sete em cada dez mdicos cubanos que aterrissam em Caracas mais cedo ou mais tarde fogem para outros pases. VEJA perguntou ao Itamaraty se, no caso de um dos mdicos cubanos fugir, o governo brasileiro o perseguiria e o entregaria s autoridades cubanas, como foi feito com os boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, em 2007. O Itamaraty informou que o assunto deveria ser tratado com o Ministrio da Educao. Este empurrou a responsabilidade para o Ministrio da Sade, que tambm no tinha uma resposta. 
     A incompetncia dos mdicos de Cuba j foi atestada no Brasil. Nos ltimos dois anos apenas 5% dos mdicos com diploma cubano que vieram para o Brasil passaram na prova do Revalida, criada pelo governo brasileiro para que formandos no exterior comprovem sua aptido. No ano passado, o governo tentou criar um curso de reforo s para brasileiros formados na ilha de Fidel, para ajud-los a passar nos exames de validao. Os profissionais vindos da Argentina e de Portugal, onde a qualidade das universidades e dos hospitais- escola  muito superior, no receberiam a mesma ajuda. O objetivo do governo brasileiro era cumprir uma promessa feita pelo PT e pelo PCdoB aos seus militantes que foram estudar na ilha, em um convnio com a ditadura dos irmos Castro. Quase a totalidade dos brasileiros que se formam em medicina em Cuba  escolhida por convices ideolgicas. No PT, a filiao de no mnimo dois anos ao partido foi, at recentemente, requisito obrigatrio. Essa agitao toda  para atender a interesses alheios  sade dos pacientes brasileiros. Quem olha por eles? Ningum


4. O CHEQUE VAI FALAR...
Segundo o publicitrio Marcos Valrio, este misterioso documento  a prova de que o dinheiro sujo do mensalo pagou as despesas pessoais do ex-presidente Lula.
RODRIGO RANGEL

     H sete anos, a Polcia Federal lida com um mistrio que pode estar perto do fim. Em 2006, durante o escndalo do mensalo, descobriu-se que entre os beneficirios do esquema de subornos estava o ento assessor do presidente Lula, Freud Godoy. A prova? Um cheque no valor de 98.500 reais emitido pela agncia do publicitrio Marcos Valrio, o operador da engrenagem de corrupo que aliciou parlamentares e comprou partidos polticos. Na poca, Freud Godoy no se encaixava no perfil dos mensaleiros e saiu-se com uma explicao at razovel para sua presena: a Caso Comrcio, sua empresa, teria prestado servios de segurana  campanha presidencial de 2002. A transao, segundo ele, liquidou um crdito que ela tinha com o PT. Para afastarem as dvidas, os investigadores at tentaram rastrear o caminho percorrido pelo dinheiro, mas esbarraram em uma srie de dificuldades. Diante do volume de recursos desviados (138 milhes de reais) e do calibre dos figures envolvidos no escndalo (ministros, banqueiros e deputados), a histria do cheque e do obscuro assessor de terceiro escalo acabou relevada. 
     No ano passado, depois de condenado a quarenta anos de priso, Marcos Valrio procurou o Ministrio Pblico e disse que o ex-presidente Lula no s sabia do esquema de suborno como tambm foi usurio do dinheiro desviado  e apresentou como prova o cheque emitido em favor da empresa de Freud Godoy. O operador do mensalo contou que os 98.500 reais foram transferidos ao ex-assessor para custear despesas pessoais do recm-empossado presidente da Repblica. Em depoimento, Valrio ainda disse aos procuradores que o cheque era parte de um valor maior e que a intimidade que ele tinha com Lula era tamanha que chegou a visit-lo no Palcio do Planalto pelo menos uma vez, fora da agenda, sem registros.  a palavra de um condenado contra a de um ex-presidente que sempre garantiu que nada sabia sobre a mquina de corrupo. O cheque pode indicar o caminho da verdade. Em tese, como ensina qualquer manual de investigao, bastaria seguir o dinheiro. A polcia at que tentou. 
     Emitido pela agncia SMPB, uma das empresas de Valrio, o cheque  nominal  Caso Comrcio e Servios, a firma de Freud Godoy. O dinheiro, portanto, deveria sair da conta da SMPB no Banco Rural direto para a conta da Caso. Mas no meio do caminho houve um primeiro desvio de rota. Em vez de ser depositado na conta da empresa de Freud, o cheque foi endossado e teve como destino outra conta.  onde aparece o n da investigao. Como  praxe nos procedimentos bancrios, quando um cheque  endossado para uma terceira pessoa, os dados da nova conta na qual o dinheiro dever ser depositado tm de ser anotados no verso do documento. Pelo carimbo, sabe-se que o destino foi uma conta do banco Santander, mas o nome do titular da conta ainda  desconhecido. O nmero anotado no verso do cheque no leva a ningum que tivesse recebido o dinheiro. Os investigadores levantaram at a hiptese de que um dos dgitos estivesse errado. O fato  que o tempo passou e a investigao foi encerrada sem que a transao fosse devidamente esclarecida. 
     Por determinao do ministro Joaquim Barbosa, relator do processo do mensalo, a apurao sobre o destino do dinheiro foi retomada, agora reforada pelo depoimento de Marcos Valrio. Na semana passada, Godoy foi intimado a depor. Suas declaraes no foram divulgadas. Valrio tambm foi ouvido. Seu depoimento, porm, no acrescentou nada ao que j se sabia. Para detalhar o que chama de "a participao do ex-presidente Lula no esquema", o publicitrio quer fazer um acordo de delao premiada com a Justia. Apresentar as provas em troca da reduo da pena  proposta vista com reserva pelas autoridades, e que pode ser dispensada se o mistrio do cheque, finalmente, for desvendado.


